terça-feira, 20 de outubro de 2009

Anticristo LARS VON TRIER


“Anticristo” chocou parte da imprensa especializada, que saiu antes de a sessão terminar ou vaiou o filme ao final da exibição. Na entrevista que concedeu aos jornalistas após a sessão, Von Trier foi alvo da fúria de alguns críticos, que não entenderam ou não gostaram do filme.

http://www.festival-cannes.com/en/mediaPlayer/9902.html
Vídeo que mostra Von Trier em CANNES

O filme relata o drama de um casal em luto, abalado pela trágica morte do pequeno filho. Von Trier apresenta a tragédia num prólogo composto com requintes de crueldade e alguma apelação, no qual o menino abre o berço, caminha pelo apartamento e salta pela janela da sala enquanto o casal, entretido, faz amor no quarto.
Von Trier também coloca em questão a chamada psicoterapia cognitiva, uma alternativa menos profunda que a psicanálise, mas útil para resolver alguns tipos de problemas, medos e traumas. O terapeuta, no filme, convence sua mulher a abandonar os remédios que vinha tomando e a superar o luto elaborando uma lista com os seus maiores medos.

Análise do filme
O filme é dividido em quatro capítulos:
“Luto", "Dor (Caos Reina)", "Desespero (Genocídio)" e "Os Três Mendigos". O termo anticristo ocorre apenas quatro vezes na Bíblia.

O orgulho "científico" do marido, o impede, até a sequência final do filme, de perceber que a mulher não sofre "simplesmente" devido à morte do filho, mas sim pela descoberta do mal que a acometeu desde sua passagem no último verão, sozinha com seu filho, pela casa deles no bosque do Éden, e que sua "escolha pelo sexo" em detrimento do filho a despertou para o pesadelo. Foi esse mal que a levou deixar seu filho morrer. O desejo, habitado pelo mal, se torna uma máquina de tortura contínua, levando o mundo à "descriação" e à desordem.

Não é por acaso que um dos "capítulos" do filme se chama (fato descrito por um dos animais deformados no Jardim do Éden de Von Trier): "Aqui reina o caos". Como aparece no roteiro sua transformação numa personalidade habitada pelo mal? Além da opção pelo orgasmo em detrimento do filho e as terríveis torturas que ela causa no corpo do seu marido e no seu próprio, a descoberta que ele faz ao ler a carta do instituto médico legal após a autópsia do filho é a gota d'água. Os médicos identificam uma deformação nos pés da criança. E por quê?

Durante o último verão, ela deveria escrever sua tese, cujo tema era criticar a suposição medieval de que a maldade seria intrínseca à natureza feminina. Em vez disso, ela descobre que sua natureza era intrinsecamente má: "A natureza é o templo de Satanás", ela diz.

Ela descobre o "prazer" de calçar os sapatos no filho invertendo os pés, e assim causar um enorme sofrimento à criança. Só diante das torturas a que é submetido por ela e dessa descoberta o marido muda de posição e percebe que deve levar a sério a fala de sua mulher: "Sou má".

O que Von Trier capta é a atmosfera que nosso casal mítico Adão e Eva experimentou após a queda. Não um jardim do Éden onde a natureza é essa criação romântica sem dor, mas uma escura câmara de terror, cheia de gemidos e solidão. A personagem feminina carrega em si toda a tragédia que é ter sido aquela que pressentiu o hálito do mal no mundo e em si mesma.

A ambiguidade deixa no ar as reais intenções de von Trier, que hora parece estar assinando um atestado de misoginia que atribui à mulher a desgraça do homem. O psicanalista despe progressivamente a esposa de seus traumas até chegar ao verdadeiro eu da parceira, demoníaco e maligno – ela é o anticristo, que leva o homem ao pecado original; ela o atrai para transar sob a “árvore do conhecimento”. É algo que o diretor sinaliza na própria grafia do título, que exibe o símbolo de Vênus no lugar do “T”. Cabe ainda ressaltar o paralelo temático com o mito de Medéia, assassina dos próprios filhos.

Mas, ao mesmo tempo, o cineasta dá a entender que o longa não passa de um conto carregado de simbolismos e papo psicológico sobre a abnegação do ser humano à irracionalidade da natureza. Por exemplo, as várias tomadas que destacam tragédias com que convivem a vegetação (o zoom no vaso de plantas no quarto do hospital) e os animais (o filhote de pássaro devorado por formigas e depois canibalizado por outro da mesma espécie). A floresta, o Éden, seria o ambiente onde a lógica não tem vez e o caos reina. E ao levar a esposa a se fundir com essa natureza, habitada por outras mães de crias mortas, o marido se torna o responsável por libertar a crueldade inerente ao homem (já dizia Hobbes).

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